Vinhas de Luz

Vinhas de Luz

quinta-feira, 2 de março de 2017

"O VALE DOS ARREPENDIDOS"

Um espírito estava prestes a nascer no mundo material. Um anjo que o estava instruindo decidiu conduzi-lo a um vale no submundo do plano espiritual onde dezenas de milhares de espíritos se mantinham presos. Muitos não sabem, mas as almas que vivem nos mundos espirituais sempre se ligam uns aos outros pela afinidade de suas vibrações e de sua natureza.
O espírito e o anjo chegaram a um vale desconhecido de muitos, conhecido como o “Vale dos espíritos arrependidos”, para onde vão as almas daqueles que viveram vidas superficiais, cometeram erros e não aproveitaram a sua encarnação. Ambos foram conversando com alguns desses espíritos. Um deles disse:
“Desperdicei minha vida com a bebida, a boemia, bares, futebol, churrascos e com falsos amigos. Todos eram meus “amigos” quando eu estava bem, bebia e contava muitas piadas nos botecos da vida, mas depois que contraí uma doença, todos se afastaram. No leito de morte vi que desperdicei minha vida com frivolidades e depois que cheguei ao plano espiritual tive uma forte sensação de tempo perdido…”
Outro espírito de uma mulher, ainda chorosa, nos disse:
“Sim, desperdicei minha encarnação tentando ajudar meu filho a ser alguém na vida. Eu não percebi que fazia isso porque me sentia carente e sozinha. No fundo queria que ele ficasse comigo e não desejava sua liberdade e independência. Eu era dependente dele e por isso achava que o estava ajudando, mas só o prejudiquei. Eu o mimei muito e depois ele não conseguia ser independente. No meu leito de morte ele nem apareceu. Eu vivia também para outras pessoas e elas nunca me deram nenhum valor. Podia ter feito tantas coisas na vida, estudado, trabalhado, me dedicado a vida espiritual, mas perdi toda uma encarnação vivendo em função de outras pessoas.”
Uma outra alma, que parecia muito triste, disse:
“Sim, eu desperdicei minha vida mergulhando no trabalho e vivendo apenas para conquistar bens materiais. Meu objetivo na vida eram os melhores cargos, os melhores salários, ganhar mais e mais dinheiro, status e uma posição de destaque. Vaidade das vaidades, tudo isso era apenas vaidade, como diz Salomão na Bíblia. Perdi 70 anos da minha vida com bobagens, futilidades e remoendo coisas supérfluas. Como gostaria de ter uma outra chance e cuidar mais de mim mesmo, ajudar outras pessoas, amar mais, dar valor as coisas simples da vida, me ligar no espírito eterno que sou, ter vivido mais a vida espiritual, e não as ilusões do mundo material. Aqui no plano do espírito, nada podemos trazer da matéria. ”
Uma alma que parecia um pouco agitada e até irada dizia:
“Aquele líder religioso me enganou! Ele me prometeu um paraíso no céu se eu desse o dízimo, se seguisse os dogmas da religião, se eu fosse casto e reto, e estou aqui, nesse vale sombrio, amargando todas as consequências de um vazio interior pela total perda de tempo. Gostaria de voltar a vida e mudar de postura, não acreditar cegamente em líderes religiosos, ter fé apenas em Deus, amar e não cultivar dogmas ou verdades prontas e acabadas. Poderia ter exercido a verdadeira espiritualidade, mas perdi tempo, muito tempo e fui um hipócrita. Não praticava o que eu mesmo pregava. Mas pensando bem, no fundo ninguém me enganou, eu mesmo que me deixei enganar, pois acreditar em dogmas e no fundamentalismo era algo muito mais cômodo do que me desenvolver espiritualmente e me tornar uma pessoa melhor, mais humilde e mais amorosa.”
Outros espíritos diziam:
“Eu desperdicei minha vida com sexualidade descontrolada”; “Já eu desperdicei minha vida com intelecto agudo e muito conhecimento teórico, mas sem prática e sem experiência direta”; “Eu fiz algo muito comum: desperdicei minha vida me julgando sempre superior a outras pessoas, e não compreendi que esse sentimento de superioridade nada mais era do que uma forma de abafar a imensa insegurança e inferioridade que eu sentia.”
E assim, muitos relatos nos foram passados pelos espíritos presos ao “Vale dos Arrependidos”, almas que desperdiçaram a oportunidade que Deus lhes deu de evoluir espiritualmente se detendo em questões banais, transitórias e sem nenhuma importância para a verdadeira vida, que é a vida do espírito imortal que somos.
Você, que ainda está encarnado e vivendo a sua vida, não faça como esses espíritos, que jogaram suas vidas fora levando existências superficiais, sem alma, sem profundidade, sem se perguntarem quem são e o que estão fazendo aqui. Almas que vivem apenas pelo corpo e pelas aparências do mundo, e não pelo espírito e pela verdade. Você tem tempo de mudar, não desperdice essa sagrada oportunidade de desenvolvimento espiritual que Deus te deu… que é a vida.

Autor: Hugo Lapa

“OBSESSÕES PELO PRAZER NA VISÃO ESPÍRITA. ”

No senso comum, a ideia de prazer está diretamente associada à de felicidade, remontando aos séculos essa relação. Na ótica espírita prazer não é pecado, tampouco o Espiritismo utiliza o conceito de pecado.
O prazer é uma condição natural constitutiva do psiquismo e do organismo de várias espécies, inclusive a humana. No nível físico isso é evidente. Não fosse a satisfação sexual e talvez não estivéssemos aqui nesse instante, porque é o instinto que garante a reprodução das espécies. No entanto, a felicidade não é sinônimo de prazer, sendo este, inúmeras vezes, uma armadilha para a plena realização do indivíduo.
Em O Livro dos Espíritos, Kardec pergunta aos espíritos:
É a mesma a força que une os elementos da matéria nos corpos orgânicos e nos inorgânicos?
– Sim, a lei de atração é a mesma para todos.
Na visão espírita a sexualidade está inserida na “lei de atração”, que antecede aos corpos orgânicos, mas já presente desde o universo inorgânico. Dentro de uma visão evolutiva, a vida é regida por princípios únicos em que a sexualidade é a continuidade natural para um sistema de atração que regula a vida e os seres.
Lei natural do Universo serve à Lei de Amor, expressão última e máxima que anima a vida criada por Deus.
Perigo no excesso
O nosso cérebro físico apresenta estruturas relacionadas ao prazer. São os sítios orgânicos que têm por função básica garantir a sobrevivência da espécie, particularmente os circuitos de recompensa do cérebro contidos no sistema límbico, mais particularmente na via mesocorticolímbica. No entanto, esses mesmos circuitos, que fazem parte da estrutura normal do sistema nervoso, estão implicados no mecanismo das dependências químicas que envolvem a saturação desses sistemas de recompensa. Hoje sabe-se que todas as drogas de abuso atuam sobre a neurotransmissão dopaminérqica, mais especificamente sobre a via mesocorticolímbica, que se projeta da área tegumentar ventral (ATV) do mesencéfalo para o núcleo accumbens (NAcc) e para o córtex pré-frontal (CPF), que compõem o sistema de recompensa cerebral (SRC).
Vemos, com isso, que a mesma via da neurofisiologia do prazer, que em condições normais é natural e desejável, pode tornar-se perigosa se for acionada em excesso. A estimulação aumentada dessas vias promove um incremento da dopamina, neurotransmissor responsável pela sensação de prazer, e sua hiperestimulação promove uma subversão do sistema de recompensa. A consequência disso é que o prazer, que seria natural em condições comuns, é sentido como insuficiente no passar do tempo.
Não é apenas pelo uso de substâncias que o sistema cerebral de recompensa é subvertido, mas também por todos os estímulos exagerados que acentuam a sensação normal de satisfação, como é o caso do comer, do jogar, do comprar, do consumir e, naturalmente, da sexualidade. O mecanismo é o mesmo, envolve os mesmos circuitos cerebrais de recompensa e vai estabelecendo-se pela continuidade do estímulo. Na base desse processo existe o sentimento de insatisfação e carência afetiva, que são de natureza profunda ou existencial.
Quando o prazer comanda a vida da pessoa, ele pode ser perigoso e construtor de enfermidades. Não há como não ver que nos dias de hoje o ser humano tenha perdido a capacidade de ter prazer naturalmente. A mídia, o apelo dos valores narcísicos, a cultura do belo, do imediato e da satisfação a qualquer preço têm gerado nas pessoas a sensação de que falta sempre alguma coisa para a realização plena. A cultura religiosa do passado dizia que nascemos para sofrer e a cultura materialista da atualidade suscita que nascemos para ser felizes a qualquer custo. Isso é uma verdadeira doença porque geradora do sentimento de que está sempre faltando alguma coisa. À medida que estamos permanentemente estimulados a procurar mais prazer, construímos o sentimento de que, com o que temos ou somos, não é possível sermos felizes, ou seja, mantemos um sentimento de infelicidade continuada, em que o vazio existencial se apresenta na forma de diversas carências.
Sintonia para as obsessões
Consideramos que a obsessão dos nossos dias é a fascinação.
A partir do que até aqui analisamos, podemos depreender que a sociedade materialista na qual estamos inseridos cria o ambiente propício para o estabelecimento de sintonias mentais compatíveis ao prazer extremo e à fuga para a superficialidade. Como espíritas, sabemos que existe o concomitante espiritual nisso tudo. Vivemos num universo de sintonias. Se não estamos buscando o enriquecimento interior, inevitavelmente empobrecemos espiritualmente e conectamo-nos com mentes desencarnadas de mesma condição. São espíritos ainda muito ligados ao plano físico e às sensações, nada interessados em progredir espiritualmente, permanecendo ligados ao plano das sensações físicas.
Além desse grupo de espíritos, outros mais maquiavélicos inspiram a desordem da sociedade, a dissolução da família, em um bem urdido plano de ação desagregadora na qual, mentes ardilosas do plano espiritual inferior agem em regime de obsessão coletiva na propagação dos vícios e dos comportamentos sem que possam ser percebidos, porque se insinuam em hábitos que parecem ser naturais numa “sociedade moderna”. Enquanto o ser humano se distrai na busca da realização pelo prazer, perde tempo precioso em executar sua própria evolução, motivo principal da reencarnação. Essa cortina de ilusão é voluntariamente fomentada pela espiritualidade inferior que age conscientemente nesse propósito e, de maneira coletiva, inspira e estimula a festa dos sentidos.
Em O Livro dos Médiuns, no capítulo XXIII, Allan Kardec estuda as obsessões… Isto é, o domínio que alguns espíritos logram adquirir sobre certas pessoas.
Sobre esse assunto, Kardec divide o tema em três principais variedades, que são as obsessões simples, as fascinações e as subjugações. Queremos nos deter nas fascinações.
O médium fascinado não acredita que o estejam enganando: o espírito tem a arte dê lhe inspirar confiança cega, que o impede de ver o embuste e de compreender o absurdo do que escreve, ainda quando esse absurdo salte aos olhos de toda gente.
Não são apenas os médiuns ostensivos que estão sujeitos às obsessões, uma vez que todas as pessoas apresentam mediunidade em algum grau.
O grande risco nesse tipo de obsessão é que a pessoa não se dá conta que está obsedada. Na fascinação o indivíduo não se sente mal, ao contrário, sente-se poderoso e o senhor da verdade.
Está sujeito, dessa forma, às obsessões pelo prazer, que nascem no orgulho e na vaidade e na necessidade exagerada de reconhecimento e satisfação.
Para vivermos no mundo não são exigidas de nós posturas rígidas e nem estamos impedidos de participar da vida social, no entanto estamos sendo convidados sempre à disciplina e ao autoexame, a fim de permanecermos responsáveis por nós mesmos e não perder tempo com trivialidades. Na estrada do desenvolvimento espiritual e da ética não há atalhos. Por isso, na sociedade hedonista em que vivemos, vale a reflexão sobre os riscos do prazer. Conforme Paulo de Tarso. “Tudo posso, mas nem tudo me convém. ”
(Coríntios, cap. 6 vers. 12)

Transcrito na Folha Espírita de Agosto de 2013.