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sábado, 11 de dezembro de 2010

"DIALOGANDO COM UM ESPIRITO CÉPTICO"

CHICO XAVIER Humberto de Campos

Ainda não me encontro bastante desapegado desse mundo para que
não me sentisse tentado a voltar a ele, no dia que assinalou o meu
desprendimento da carcaça de ossos.
Se o vinte e sete de outubro marcou o meu ingresso no reino das
sombras, que é a vida daí, o cinco de dezembro representou a. minha volta
ao país de claridades benditas, cujas portas de ouro são escancaradas pelas
mãos poderosas da morte.
Nessa noite, o ambiente do cemitério de São João Batista parecia
sufocante. Havia um "quê" de mistérios, entre catacumbas silenciosas, que
me enervava, apesar da ausência dos nervos tangíveis no meu corpo
estranho de espírito. Todavia, toquei as flores cariciosas que a Saudade
me levara, piedosa e compungidamente. O seu aroma penetrava o meu
coração como um consolo brando, conduzindo-me, num retrospecto
maravilhoso, às minhas afeições comovidas, que haviam ficado a
distância.
E foi entregue a essas cogitações, a que são levados os mortos
quando penetram o mundo dos vivos, que vi, acocorado sobre a terra, um
dos companheiros que me ficavam próximos ao bangalô subterrâneo com
que fui mimoseado na terra carioca. .
- O senhor é o dono desses ossos que estão por aí apodrecendo? -
interpelou-me.
- Sim, e a que vem a sua pergunta?
- Ora, é que me lembro do dia de sua chegada ao seu palacete
subterrâneo. Recordo-me bem, apesar de sair pouco dessa toca para onde
fui relegado há mais de trinta anos... - O senhor se lembra? A urna
funerária, portadora dos seus despojos, saiu solenemente da Academia de
Letras, altas personalidades da política dominante se fizeram representar
nas suas exéquias e ouvi sentidos panegíricos pronunciados em sua
homenagem. Muito trabalho tiveram as máquinas fotográficas na
camaradagem dos homens da imprensa e tudo fazia sobressair à
importância do seu nome ilustre. Procurei aproximar-me de si e notei que
as suas mãos, que tanto haviam acariciado o espadim acadêmico, estavam
inermes e que os seus miolos, que tanto haviam vibrado, tentando
aprofundar os problemas humanos, estavam reduzidos a um punhado de
massa informe,onde apenas os vermes encontrariam algo de útil.
Entretanto, embora as homenagens, as honrarias, a celebridade, o senhor
veio humildemente repousar entre as tíbias e os úmeros daqueles que o
antecederam na jornada da Morte. Lembra-se o senhor de tudo isso?
- Não me lembro bem... Tinha o meu espírito perturbado pelas dores
e emoções sucessivas.
- Pois eu me lembro de tudo. Daqui, quase nunca me afasto, como
um olho de Argos, avivando a memória dos meus vizinhos. O senhor
conhece as criptas de Palermo?
- Não.
- Pois nessa cidade os monges, um dia, conjugando a piedade com o
interesse, inventaram um cemitério bizarro. Os mortos eram mumificados
e não baixavam à sepultura. Prosseguiam de pé a sua jornada de silêncio e
de nudez espantosa. Milhares de esqueletos ali ficaram, em marcha,
vestidos ao seu tempo, segundo os seus gostos e opiniões. Muito rumor
causou essa parada de caveiras e de canelas, até que um dia um inspetor
da higiene, visitando essa casa de sombras da vida e enojado com a
presença dos ratos que roíam displicentemente as costelas dos
traspassados ricos e ilustres que se davam ao gosto de comprar ali um
lugar de descanso, mandou cerrar-lhe as portas pelo ministro Crispi, em
1888. Ora bem: eu sou uma espécie dos defuntos de Palermo. Aqui estou
sempre de pé, apesar dos meus ossos estarem dissolvidos na terra, onde se
encontraram com os ossos dos que foram meus inimigos.
- A vida é assim -disse-lhe eu; mas, por que se dá o amigo a essa
inglória tarefa na solidão em que se martiriza? Não teria vindo do orbe
com bastante fé, ou com alguma credencial que o recomendasse a este
mundo cujas fileiras agora integramos? -
Credenciais? Trouxe muitas. Além da honorabilidade de velho
político do Rio de Janeiro, trazia as insígnias da minha fé católica,
apostólica romana. Morri com todos os sacramentos da igreja ; porém,
apesar das palavras sacramentais, da liturgia e das felicitações dos
hissopes, não encontrei viva alma que me buscasse para o caminho do
Céu, ou mesmo do inferno. Na minha condição de defunto
incompreendido, procurei os templos católicos, que certamente estavam
na obrigação de me esclarecer. Contudo, depressa me convenci da
inutilidade do meu esforço. As igrejas estão cheias de mistificações. Se
Jesus voltasse agora ao mundo, não poderia tomar um átomo de tempo
pregando as virtudes cristãs, na base, luminosa da humildade. Teria de
tomar, incontinenti, ao regressar a este mundo, um látego do fogo e
trabalhar anos afio no saneamento de sua casa. Os vendilhões estão muito
multiplicados e a época não comporta mais o Sermão da Montanha. O que
se faz necessário, no tempo atual, no tocante a esse problema, é a creolina
de que falava Guerra Junqueiro nas suas blasfêmias.
- Mas, o irmão está muito cético. É preciso esperança e crença...
-Esperança e crença? Não acredito que elas salvem o mundo, com
essa geração de condenados. Parece que maldições infinitas perseguem a
moderna civilização. Os homens falam de fé e de religião, dentro do
esnobismo e da elegância da época. A religião é para uso externo,
perdendo-se o espírito nas materialidades do século. As criaturas parecem
muito satisfeitas sob a tutela estranha do diabo. O nome de Deus, na
atualidade, não deve ser evocado senão como máscara para que os
enigmas do demônio sejam resolvidos.
Não estamos nós aqui dentro da terra da Guanabara, paraíso dos
turistas, cidade maravilhosa? Percorra o senhor, ainda depois de morto, as
grandes avenidas, as artérias gigantescas da capital e verá as crianças
famintas, as mãos enauseantes dos leprosos, os rostos desfigurados e
pálidos das mães sofredoras, enquanto o governo remodela os teatros,
incentiva as orgias carnavalescas e multiplica regalos e distrações. Vá ver
como o câncer devora os corpos enfermos no hospital da Gamboa; ande
pelos morros, para onde fugiu a miséria e o infortúnio; visite os hospícios
e leprosários. Há de se convencer da inutilidade de todo o serviço em
favor da esperança e da crença. Em matéria de religião, tente materializarse
e corra aos prédios elegantes e aos bangalôs adoráveis de Copacabana e
do Leblon, suba a Petrópolis e grite a verdade. O seu fantasma seria
corrido a pedradas. Todos os homens sabem que hão de chocalhar os
ossos, como nós, algum dia, mas um vinho diabólico envenenou no berço
essa geração de infelizes e de descrentes.
- Por que o amigo não tenta o Espiritismo? Essa doutrina representa
hoje toda nossa esperança.
- Já o fiz. É verdade que não compareci em uma reunião de
sabedores da doutrina, conhecedores do terreno que perquiriam; mas
estive em uma assembléia de adeptos e- procurei falar-lhes dos grandes
problemas da existência das almas. Exprobrei os meus erros do passado,
penitenciando-me das minhas culpas para escarmentá-los; mostrei-lhes as
vantagens da prática do bem, como base única para encontrarmos a senda
da felicidade, relatando-lhes a verdade terrível, na qual me achei um dia,
om os ossos confundidos com os ossos dos miseráveis. Todavia, um dos
componentes da reunião interpelou-me a respeito das suas tricas
domésticas, acrescentando uma pergunta quanto à marcha dos seus
negócios. Desiludi-me.
Não tentarei coisa alguma. Desde que temos vida depois da morte,
prefiro esperar a hora do Juízo Final, hora essa em que deverei buscar um
outro mundo, porque, com respeito a Terra, não quero chafurdar-me na
sua lama. Por estranho paradoxo vivo depois da morte, serei adepto da
congregação dos descrentes. .
- Então, nada o convence?
- Nada. Ficarei aqui até à consumação dos evos, se a mão do Diabo
não se lembrar ,de me arrancar dessa toca de ossos moídos e cinzas
asquerosas. E, quanto ao senhor, não procure afastar-me dessa
misantropia. Continue gritando para o mundo que lhe guarda os despojos.
Eu não o farei.
E o singular personagem, recolheu-se à escuridão do seu canto
imundo, enquanto pesava no meu espírito a certeza dolorosa da existência
dessas almas vazias e incompreendidas na parada eterna dos túmulos
silenciosos para onde os vivos levam de vez em quando as flores
perfumadas da sua saudade e da sua afeição.
Recebida em Pedro Leopoldo a 13 de dezembro de 1935.

Do livro Palavras do Infinito. Psicografia de Francisco Cândido Xavier.